Para os trabalhadores e trabalhadoras da indústria gráfica, cuidar da saúde significa também discutir jornada, ambiente de trabalho, prevenção, acesso ao diagnóstico e o direito de tratar uma doença sem perder dignidade e proteção
Por Alexandre Xavier (para STIGPOA – Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Gráficas de Porto Alegre)
Todos os anos, o mês de outubro ganha a cor rosa para lembrar uma questão que ultrapassa consultórios, hospitais e campanhas publicitárias: o direito à saúde e à vida.
O Outubro Rosa é hoje um dos maiores movimentos de conscientização sobre o câncer de mama. Surgido internacionalmente na década de 1990, o movimento chegou ao Brasil no início dos anos 2000 e foi oficialmente instituído no calendário nacional pela Lei nº 13.733/2018. Em Porto Alegre, inclusive, uma das primeiras iniciativas brasileiras ocorreu em 2002, com a iluminação de monumentos públicos.
Para o STIGPOA – Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Gráficas de Porto Alegre, entretanto, o Outubro Rosa precisa ir além da simbologia.
Falar de câncer de mama também é falar de trabalho.
É falar sobre mulheres que acordam cedo para trabalhar, sobre aquelas que enfrentam jornadas noturnas, sobre profissionais que conciliam trabalho remunerado e responsabilidades familiares, sobre condições ambientais, prevenção, acesso à saúde e sobre a necessidade de garantir que nenhum trabalhador ou trabalhadora seja colocado diante da escolha impossível entre cuidar da própria saúde e preservar seu emprego.
O câncer de mama no Brasil
O câncer de mama é o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras, excluídos os tumores de pele não melanoma, e também representa a principal causa de morte por câncer entre as mulheres no país.
Para o período de 2026 a 2028, o INCA estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil. Em 2024, foram registrados 20.849 óbitos pela doença.
A doença também pode atingir homens, embora seja muito menos frequente: eles representam aproximadamente 1% dos casos. Portanto, uma campanha de saúde do trabalhador também deve lembrar que informação e atenção não são exclusivas das mulheres.
A idade é um dos principais fatores de risco. Mas o câncer de mama é uma doença multifatorial e pode estar relacionado a fatores hormonais, genéticos, ambientais, comportamentais e ocupacionais.
E é justamente aí que o debate sobre saúde e trabalho ganha importância.
Quando o trabalho entra na discussão sobre câncer
O Instituto Nacional de Câncer reconhece que existem exposições ocupacionais associadas a diferentes tipos de câncer.
No caso específico do câncer de mama, o INCA aponta associações com determinadas exposições ocupacionais reconhecidas pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, incluindo radiações ionizantes, óxido de etileno e alguns pesticidas e bifenilas policloradas. O Instituto também destaca o trabalho em turnos noturnos como uma condição classificada como provavelmente carcinogênica, associada à alteração do ritmo circadiano e de mecanismos hormonais.
O Ministério da Saúde, por sua vez, define câncer relacionado ao trabalho como aquele que possui, entre seus elementos causais, exposições a fatores, agentes ou situações de risco presentes no ambiente ou no processo de trabalho — inclusive quando os efeitos aparecem depois do encerramento da exposição.
Isso não significa que todo câncer de mama seja causado pelo trabalho.
Significa que a saúde ocupacional precisa fazer parte da discussão sobre prevenção e vigilância.
E o que isso tem a ver com a categoria gráfica?
A indústria gráfica reúne diferentes processos produtivos e condições de trabalho. Dependendo da função e da organização de cada empresa, trabalhadores podem estar submetidos a ruído, calor, esforços repetitivos, jornadas diferenciadas, trabalho noturno e contato com diferentes produtos químicos utilizados nos processos industriais.
É importante fazer uma distinção: as fontes oficiais consultadas não permitem afirmar que a atividade gráfica, genericamente, seja causa de câncer de mama.
O que elas demonstram é que determinados agentes químicos e físicos presentes em ambientes de trabalho podem representar riscos à saúde e que algumas condições ocupacionais, como o trabalho noturno, estão relacionadas a maior risco de câncer de mama.
A Fundacentro, instituição federal dedicada à pesquisa e à promoção da segurança e saúde no trabalho, ressalta que os ambientes ocupacionais podem apresentar riscos químicos, físicos e biológicos e que determinadas substâncias, incluindo solventes e metais pesados, podem provocar doenças graves, inclusive câncer.
Por isso, a prevenção na indústria gráfica deve envolver avaliação dos riscos de cada processo produtivo, controle das exposições, equipamentos de proteção adequados, ventilação, treinamento, acompanhamento médico ocupacional e cumprimento das normas de segurança e saúde no trabalho.
A NR-15, por exemplo, estabelece parâmetros e critérios relacionados a diversas exposições ocupacionais, incluindo agentes químicos, radiações, ruído, calor e outros riscos.
Prevenir também é organizar um ambiente de trabalho seguro.
O trabalho noturno merece atenção
Este é um dos pontos mais importantes para a discussão dentro do mundo do trabalho.
O INCA aponta o trabalho no período noturno, especialmente entre 22h e 5h, como uma condição ocupacional associada ao aumento do risco de câncer de mama. A hipótese envolve a alteração do ritmo circadiano, com impactos sobre mecanismos hormonais e inflamatórios.
Em setores industriais que funcionam em diferentes turnos, essa discussão precisa estar presente.
Para o trabalhador gráfico que atua durante a noite, a saúde não pode ser reduzida a uma questão individual.
É necessário discutir jornada, descanso, organização dos turnos, condições ambientais e acompanhamento da saúde dos trabalhadores.
A prevenção deve começar antes que o adoecimento apareça.
A trabalhadora não deixa de ser trabalhadora quando adoece
Existe ainda outra dimensão fundamental do Outubro Rosa.
A mulher que recebe um diagnóstico de câncer continua sendo uma trabalhadora, uma profissional, uma mãe, uma companheira, uma filha e uma cidadã.
O diagnóstico pode significar consultas, exames, cirurgias, quimioterapia, radioterapia, medicamentos e períodos de recuperação.
Pode significar também mudanças na rotina e afastamentos.
Por isso, uma política de saúde do trabalhador precisa considerar a integralidade do cuidado.
O enfrentamento do câncer não deve ser tratado como responsabilidade exclusivamente individual. O SUS, a empresa, os serviços de saúde, os profissionais de segurança e saúde no trabalho e as organizações sindicais têm papéis importantes na construção de uma cultura de prevenção e proteção.
Para o movimento sindical, defender a saúde significa também defender condições para que o trabalhador possa adoecer sem ser abandonado e tratar-se sem perder sua dignidade.
Rio Grande do Sul: um alerta importante
O debate ganha ainda mais relevância no Rio Grande do Sul.
O Estado apresenta uma das maiores taxas de mortalidade por câncer de mama do país. O panorama nacional publicado pelo INCA em 2025 apontou que as maiores taxas ajustadas de mortalidade estavam concentradas, entre outras unidades da Federação, no Rio Grande do Sul.
Para 2026, o INCA estima 3.790 novos casos de câncer de mama no Rio Grande do Sul, correspondendo a uma taxa bruta estimada de 65,57 casos por 100 mil mulheres.
São números que demonstram que o Outubro Rosa não pode ser apenas uma campanha de um mês.
No Estado, a Secretaria da Saúde mantém o Observatório do Câncer do Rio Grande do Sul, que acompanha indicadores de câncer de mama e de cobertura da mamografia de rastreamento.
Também foi estruturado o SERMulher RS, serviço especializado que recebe mulheres com alterações nos exames de rastreamento de câncer de mama e colo do útero, possibilitando investigação, acompanhamento e encaminhamento para serviços de maior complexidade quando necessário.
Para os trabalhadores e trabalhadoras, conhecer essa rede é importante.
Informação também é uma ferramenta de proteção.
A prevenção precisa caber na jornada de trabalho
Uma das principais mensagens que o movimento sindical pode deixar neste Outubro Rosa é simples:
não basta dizer ao trabalhador para cuidar da saúde; é preciso criar condições para que ele consiga cuidar dela.
Uma trabalhadora que passa o dia inteiro na empresa, enfrenta deslocamentos longos e ainda possui responsabilidades familiares precisa de tempo e condições para consultar um profissional de saúde.
Por isso, políticas de prevenção no ambiente de trabalho podem contribuir para uma cultura permanente de cuidado.
Empresas e trabalhadores podem promover ações educativas, campanhas de informação, orientação sobre fatores de risco, estímulo à atividade física, alimentação saudável, redução do consumo de álcool e tabagismo e, principalmente, incentivo para que sinais suspeitos sejam investigados rapidamente.
O Ministério da Saúde destaca que o diagnóstico precoce está relacionado a melhores possibilidades de tratamento e prognóstico.
Conhecer o próprio corpo também é prevenção
O câncer de mama pode apresentar diferentes sinais.
Entre eles estão caroço ou nódulo persistente na mama, alterações na pele, retração do mamilo, secreção sanguinolenta pelo mamilo, mudanças no formato da mama e alterações na região da axila.
Qualquer alteração suspeita deve ser avaliada por um profissional de saúde.
Não se deve esperar o mês de outubro para procurar atendimento.
E também é importante lembrar que o rastreamento por mamografia segue critérios definidos pelas políticas de saúde e deve ser discutido individualmente com os profissionais de saúde, considerando idade, histórico familiar, fatores de risco e outras características.
Saúde não é favor. É direito.
A história do movimento sindical brasileiro está profundamente relacionada à luta por melhores condições de trabalho.
Jornada, salário, descanso, segurança, previdência e saúde não são temas separados.
Todos fazem parte da mesma luta: a defesa da dignidade de quem trabalha.
O Outubro Rosa oferece uma oportunidade para lembrar que a saúde da trabalhadora também deve estar no centro das relações de trabalho.
E que prevenir doenças relacionadas ao trabalho significa olhar para o ambiente produtivo, para a organização das jornadas e para os riscos existentes em cada atividade.
No caso da categoria gráfica, essa responsabilidade precisa envolver trabalhadores, empresas, profissionais de saúde e entidades sindicais.
O STIGPOA entende que defender a categoria é também defender sua saúde.
Neste Outubro Rosa, o nosso compromisso é com a vida
Que o rosa deste mês não fique apenas nas campanhas, nos cartazes e nas redes sociais.
Que ele esteja presente na prevenção.
Na informação.
Na segurança do trabalho.
No respeito às trabalhadoras.
Na proteção de quem exerce jornadas diferenciadas.
Na busca pelo diagnóstico precoce.
No direito ao tratamento.
E na construção de ambientes de trabalho cada vez mais seguros e saudáveis.
O trabalhador que produz, imprime, cria e transforma também precisa ser cuidado.
Porque nenhum trabalho vale mais do que uma vida.
STIGPOA — Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Gráficas de Porto Alegre
Outubro Rosa: prevenção, informação e saúde também são direitos de quem trabalha.
Fontes oficiais consultadas
Instituto Nacional de Câncer — INCA / Ministério da Saúde
- Câncer de mama — informações para população e fatores de risco.
- Câncer de mama — versão para profissionais de saúde, incluindo fatores ocupacionais.
- Controle do câncer de mama no Brasil: dados e números 2025.
- Estimativas 2026 — Rio Grande do Sul.
- Histórico das ações de controle do câncer de mama no Brasil.
Ministério da Saúde
- Câncer de mama — sinais, fatores de risco e diagnóstico.
- Câncer relacionado ao trabalho.
- Outubro Rosa — calendário oficial de saúde.
Fundacentro
- Riscos químicos, biológicos, físicos e tecnologias emergentes.
- Normas Regulamentadoras e segurança e saúde no trabalho.
- Norma Regulamentadora nº 15 — atividades e operações insalubres.
Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul
- Observatório do Câncer RS — indicadores de câncer de mama.
- SERMulher RS — rede especializada de atenção à saúde da mulher.
- CERESTs — Centros de Referência em Saúde do Trabalhador no Rio Grande do Sul.
Nota editorial: esta matéria não estabelece que a atividade gráfica seja, por si só, causa de câncer de mama. A relação entre trabalho e câncer é multifatorial e depende das exposições e condições concretas de cada processo produtivo. As afirmações sobre riscos ocupacionais foram baseadas exclusivamente em informações de órgãos públicos e fontes técnico-científicas oficiais.
